A morte e o estresse

PDF
smaller text tool iconmedium text tool iconlarger text tool icon

Que relações causais poderiam ter esses três elementos? Seria a vida possível sem estresse?  É a morte, exatamente, o único fim de todo estresse? Foi uma frase citada pelo tanatologista Aroldo Escudeiro: “a morte é a organizadora da vida” que despertou em mim tais indagações e desejo de reflexão. De que maneira a morte pode se declarar como quem organiza a vida?

 

A possibilidade iminente da morte é intrínseca e necessária para a ocorrência do estresse. Segundo o pioneiro em estudos sobre estresse, Hans Selye, 1936, Estresse é uma “reação do organismo a estímulos nocivos”. Então, para haver estresse, necessariamente, tem de existir um elemento real ou imaginário que simbolize perigo, nocividade, morte.

 

Ora, na maioria dos animais a presença do perigo é seguida de acionamento do sistema de alarme cerebral e liberação instantânea de hormônios responsáveis pela sensação de medo que excitarão o organismo para o movimento de fuga ou luta. Ou seja, é o medo da morte a serviço da preservação da vida.

 

 

Esse é o mecanismo original que a natureza dotou as criaturas para manter a vida e conseqüente sobrevivência da espécie. O homem primitivo tinha esse mecanismo acionado numa freqüência absurda. Era diária a luta pela sobrevivência. A possibilidade de morte era a uma realidade quase contínua. Diante das feras, a ferida representava risco de morte ou perda grave da capacidade de adaptação. Para viver era preciso estresse.                                                                      .

 

Mas, a sabedoria da mãe natureza não só criou um sistema que gerasse medo para nos impulsionar à luta ou à fuga. Preparou circuitos neurológicos que pudessem nos recompensar toda vez que escapássemos do perigo que representasse a morte: o sistema de recompensa cerebral. Portanto, o prazer foi o segredo que a natureza encontrou para reforçar o interesse pela vida e, conseqüentemente, pela sobrevivência da espécie. É assim que funciona. A recompensa, patrocinada pela liberação de hormônios poderosos desse sistema, se expressa na experiência arquetípica do prazer proporcionado pela sensação de alívio. Pronto, estão implantados, geneticamente, os dois sistemas que determinarão o comportamento humano.  Segundo, Alexander Lowen, grande ícone da Bioenergética, “todo comportamento humano é para buscar o prazer ou fugir da dor”. E assim o homem atravessa a vida marcada por escolhas que trazem essas duas possibilidades.

 

A recompensa de prazer, decorrente do esforço pela vitória contra o perigo, fez surgir na história da humanidade a figura também arquetípica do herói. É herói todo aquele individuo que se predispõe a salvar a si e/ou ao outro da morte. O médico que livra da doença, o governante que livra da fome, o mestre que livra da ignorância que leva a fome, o policial que livra do crime, o ser que livra da tensão sexual, cuja não resolução põe em risco a sobrevivência da espécie são arquétipos de heroísmo.

É em busca dessa recompensa que muitos se submetem a situações críticas. Os esportes radicais estão aí para confirmar essa atração pelo perigo que desafia a morte. Como diz Anatole France "A atração pelo perigo está no fundo de todas as paixões profundas do homem”

Fez também surgir outras figuras, também arquetípicas, que, diante do acionamento do sistema de alarme cerebral, não tiveram o mesmo comportamento. Uma delas é a vítima que, ao invés de optar pela fuga ou pela luta, prefere a dor e transferir para o herói tal atitude que requer necessariamente movimento de luta ou de afastamento do objeto de perigo.

 

Como disse Jean Paul Sartre: não importa o que nos acontece, mas sim o que fazemos com o que nos acontece. É o que se faz, diante das dificuldades que signifique possibilidade real ou imaginária de morte, que determinará a natureza do herói ou da vítima. A vítima terceiriza a busca pela recompensa. A recompensa obtida sem esforço não representa ganho moral ou de auto-estima.

 

São muitos os que tentam burlar o sistema de recompensa sem a tensão do esforço ou movimento. O prazer imediato proporcionado pela bebida ou comida sem a contrapartida moral do esforço e tensão de busca é o que caracteriza figura, também arquetípica, do dependente. O dependente quer o prazer da vitória sem o movimento de luta por ela. O movimento de fuga ou em direção ao objeto  requer gasto de energia e estresse, mas existem aqueles que não suportam essa realidade e optam pela via fácil da oralidade. Suportar o estresse e retornar ao estado de homeostase é o que define uma vida resiliente. Segundo a física, é a capacidade de deformar e voltar ao normal que caracteriza a resiliencia de um material.

 

 

Se existe um comando “genético” de busca de prazer e evitação da dor, como explicar as estatísticas? A Organização Mundial de Saúde publicou que em 2002 morreram cerca de 1.200.000 de pessoas por ano vítimas (?) de acidente (?) de trânsito. E o que chama atenção: a maioria é jovem. A maior causa de morte em jovens abaixo de 40 anos no mundo continua sendo trauma, ou seja, morte violenta. Será realmente que o homem foge da morte ou é atraído por ela?  Além do trânsito, os crimes, esportes radicais, acidentes de trabalho, contribuem para aumentar ainda mais essa estatística na população jovem. Estaria o homem “viciado” em estresse? O que nesse fenômeno atrai o comportamento do homem?

Segundo Sêneca: o prazer aumenta com o perigo que nos deveria afastar dele. Mas, o mesmo filósofo é quem diz: “é justamente através dos prazeres que nascem as causas da dor”.

 

O pensamento oriental diz que a diferença entre o bem e o mal é apenas quantitativa. Esse conceito cabe muito bem na explicação do porque da busca pela experiência estressante. Uma quantidade determinada de estresse pode ser fonte de excitação e prazer desde que seja acompanhada de relativo descanso e recuperação. É a excitação, decorrente do desafio que representa e presença de perigo com a correspondente possibilidade de vitória, que tanto nos atrai. Sem o perigo, nem que seja de forma simbólica, como a perda de um jogo de futebol, não há o sem sentimento de vitória, de glória.

 

No mundo ocidental vive-se sob a máxima, sutilmente introduzida no inconsciente coletivo, de que “o melhor é o mais rápido”. A busca pela velocidade que proporciona excitação e prazer é a mesma que aumenta a probabilidade de trauma e quanto maior a velocidade, de morte.   Segundo estudos estatísticos a probabilidade de trauma aumenta com o dobro da velocidade, de trauma grave com o triplo e de morte com a velocidade ao quadrado.

Woody Allen foi feliz ao pronunciar “a morte foi uma maneira que a natureza encontrou pra lhe dizer: vá devagar!”. Parece ser a velocidade, causa e efeito de aumento de adrenalina no sangue, o grande símbolo de competência e progresso.  A lentidão na civilização ocidental é considerada defeito grave. No mundo da tecnologia a velocidade é sinônima de produtividade.

 

O irônico é que a proposta original da tecnologia foi de ajudar o homem a resolver seus problemas com a sobrevivência. O aumento vertiginoso do ritmo de vida não foi devidamente acompanhado, no sentido de adaptação, pela maioria das pessoas.

 

A ansiedade e a pressa, trazidas no bojo da velocidade do progresso, têm adoecido e levado à morte milhares de seres humanos que não se adaptaram.  Os heróis de nossa civilização são caracterizados pela rapidez com que se movem e resolvem os problemas. Os ídolos do esporte são os que vencem a barreira do tempo e quebram recordes à custa da saúde e sacrifício de outras áreas da vida.


Receba Novidades

: